O Corno de Ouro — uma ponte suspensa do metro que transformou a silhueta de Istambul
A Ponte do Metrô do Corno de Ouro (em turco, Haliç Metro Köprüsü) é a obra de engenharia mais controversa e, ao mesmo tempo, uma das mais reconhecíveis da Istambul contemporânea. Trata-se de uma ponte suspensa pela qual, desde 15 de fevereiro de 2014, circula a linha M2 do metro de Istambul, atravessando a baía com o mesmo nome entre os bairros de Beyoğlu e Fatih, na margem europeia. A Ponte do Corno de Ouro tornou-se a quarta estrutura a atravessar a baía, situando-se precisamente entre a histórica Ponte de Galata e a Ponte de Atatürke — apenas a duzentos metros a leste desta última. O seu projeto foi acompanhado pela ameaça da UNESCO de excluir o centro histórico da cidade da lista do Património Mundial, e a silhueta final, com pilares em forma de «chifres» de 65 metros de altura e uma estação diretamente sobre a água, tornou-se um compromisso entre a necessidade de transportes e a antiga paisagem urbana.
História e origem do Corno de Ouro
A ideia de construir uma ponte especial para o transporte ferroviário sobre a baía pairava em Istambul há muito tempo. Os primeiros esboços do projeto datam de 1952, e a Wikipédia turca refere que os estudos de projeto remontam à década de 1960. No entanto, durante décadas, o projeto permaneceu no papel: a travessia do Corno de Ouro exigia não apenas uma solução de engenharia, mas também a compatibilidade com o estatuto de proteção do centro histórico de Constantinopla-Istambul. Na realidade, a ideia só começou a concretizar-se durante o mandato de Kadir Topbaş como presidente da câmara da metrópole (2004–2017).
Depois de a nova linha de metro ter recebido a aprovação do conselho municipal para a proteção de monumentos e de os túneis de metro em ambas as margens já terem sido escavados, o município anunciou um concurso. Em 2005, foram apresentados para apreciação vinte e um projetos, mas nenhum se enquadrava na silhueta da cidade antiga. A proposta vencedora do arquiteto turco Hakan Kiran foi, por si só, alvo de acesas controvérsias: os responsáveis da UNESCO ameaçaram abertamente excluir Istambul da lista do Património Mundial, caso as torres fossem demasiado altas.
Em novembro de 2009, a altura dos pilares foi reduzida dos 82 metros previstos para o projeto para 65 metros. O nível superior das fixações dos cabos foi baixado de 63 para 55 metros e, posteriormente, em 2011, para os 47 metros finais. O projeto revisto foi aprovado em fevereiro de 2012. O desenvolvimento conceptual foi conduzido pelo engenheiro civil francês Michel Virloje, autor da terceira ponte sobre o Bósforo, dedicada ao sultão Selim o Terrível. Hakan Kiran foi responsável pela solução arquitetónica e pela supervisão da obra, enquanto os cálculos de engenharia foram realizados pela empresa Wiecon Consulting Engineers & Architects. A construção ficou a cargo de um consórcio formado pela italiana Astaldi e pela turca Gülermak Ağır Sanayi İnşaat ve Taahhüt A.Ş.
As obras começaram a 2 de janeiro de 2009 e estavam previstas para durar 600 dias. Na realidade, a construção prolongou-se: a conclusão data de 9 de janeiro de 2013, os comboios de teste entraram em circulação já no dia seguinte e o tráfego regular foi inaugurado a 15 de fevereiro de 2014. O custo final ascendeu a 146,7 milhões de euros. Durante as obras, o projeto foi revisto duas vezes devido a achados arqueológicos: ao escavar as valas para os pilares no lado de Unkapana-Küçükpazarı, descobriu-se uma abóbada bizantina e, posteriormente, vestígios de uma parede de uma basílica paleocristã e um cemitério. Foi necessário redesenhar também o edifício do operador do viaduto levadiço.
Arquitetura e pontos de interesse
Do ponto de vista da engenharia, o Corno de Ouro é uma ponte suspensa com 936 metros de comprimento, dos quais 460 metros passam sobre a água entre as margens de Azapkapi (Beyoğlu) e Unkapana (Fatih). O vão principal entre as duas torres tem 180 metros, com nove cabos em esquema harmónico de cada lado, fixados a uma altura de 47 metros. Os pilares de aço elevam-se a 65 metros e, segundo a conceção de Hakan Kiran, foram especialmente projetados para sugerir a silhueta de um chifre de navio, enquanto os suportes das plataformas evocam os cascos dos navios. Trata-se de uma referência direta ao passado marítimo da cidade.
Fundação em solo macio
O fundo do Corno de Ouro é constituído por sedimentos lamacentos e instáveis, pelo que foi necessário cravar, sob cada torre, dezenas de estacas tubulares de aço com diâmetros de 1800 e 2500 milímetros, importadas da Europa. Estas foram cravadas a uma profundidade superior a 30 metros com um martelo hidráulico. Cada torre assenta num conjunto de nove estacas, enquanto os apoios laterais assentam em conjuntos de quatro ou cinco. É precisamente esta parte oculta do trabalho que garante a estabilidade de toda a construção numa região sismicamente ativa.
Plataforma, passeios e vão suspenso
A largura da ponte é de 12,6 metros. No centro estão dispostas duas vias de metro, nas laterais — duas calçadas com 4,4 metros de largura cada. O tabuleiro está elevado 13 metros acima da água, e a própria estrutura em caixa tem 4,45 metros de altura. Do lado de Unkapana, existe um vão levadiço de 120 metros — uma estrutura em balanço com secções de 50 e 70 metros, apoiadas num pilar central. A abertura é controlada a partir de uma cabine separada entre a ponte e a margem: o vão gira em ângulo reto em torno de um eixo vertical e, em quatro a seis minutos, abre um canal com cerca de 40 metros de largura. No verão, o vão deve ser aberto uma vez por semana, das 00h00 às 05h00; no inverno, duas vezes.
Estação Haliç — metro sobre a água
O principal destaque arquitetónico é a estação «Haliç», com 180 metros de comprimento, que está integrada diretamente no vão central sobre a baía. A plataforma foi concebida para um comboio de oito carruagens e está coberta por uma cobertura com 90 metros de comprimento. Segundo os planos, até um milhão de passageiros passará diariamente pela estação e pela ponte, ligando a zona de Taksim ao histórico Sultanahmet, ao Grande Bazar e ao nó de transportes de Yenikapı. Para o viajante, isto significa uma coisa simples: é possível sair do metro diretamente sobre a água, ver à direita a Torre de Galata, à esquerda — a silhueta de Süleymaniye — e tirar uma das fotos mais invulgares da cidade de Istambul.
Viadutos e ligação com os túneis
Em ambos os lados, a ponte dá lugar a viadutos que conduzem suavemente a linha M2 para os túneis subterrâneos. No lado norte — em Şişhane e mais adiante para Taksim e Hacıosman; no lado sul — em Vezneciler, Yenikapı e em direção ao aeroporto Sabiha Gökçen através de transferências. É precisamente graças a estes viadutos que a ponte não se limita a «suspender-se» sobre a baía, mas integra-se organicamente na via subterrânea de 60 quilómetros.
A controvérsia sobre a silhueta da cidade velha
Mesmo após a redução da altura, a discussão em torno da arquitetura não se acalmou. As ordens dos arquitetos e urbanistas turcos, bem como muitos cidadãos, criticaram as autoridades pelo facto de os planos aprovados pela UNESCO terem sido alterados já durante a construção, sem acordo prévio. Os críticos insistiam: qualquer interferência na panorâmica histórica de Sultanahmet, da mesquita de Süleymaniye e da torre de Galata é inadmissível. Os defensores do projeto argumentavam que a cidade, com uma população de 15 milhões de habitantes, precisava de infraestruturas modernas e que, apesar de todas as críticas, os pilares eram mais delicados do que os viadutos rodoviários. Após a inauguração do metro, a onda de críticas diminuiu visivelmente: a estação Haliç e os passeios pedonais facilitaram consideravelmente a ligação entre as margens para quem não tem carro, e a própria ponte integrou-se gradualmente na paisagem quotidiana de Istambul.
Factos interessantes e lendas
- A ideia da ponte surgiu já em 1952, mas esperou pela sua hora durante mais de meio século — este é um caso raro na engenharia urbana, em que passaram mais de 60 anos entre o projeto e a inauguração.
- Em 2009, a UNESCO ameaçou diretamente excluir a Istambul histórica da lista do Património Mundial, caso a altura dos pilares não fosse reduzida. Este é o único caso na história moderna da cidade em que a intervenção de uma organização internacional alterou o projeto de engenharia já na fase de construção.
- Ao escavar a vala para o pilar do lado de Ünkapı, os arqueólogos encontraram uma abóbada bizantina, seguida de uma parede de uma basílica paleocristã e um antigo cemitério. O projeto teve de ser reformulado duas vezes — assim, a Bizâncio «parou» literalmente os construtores italianos e turcos no século XXI.
- O autor do conceito, Michel Virloje, projetou também a terceira ponte sobre o Bósforo, dedicada ao sultão Selim, o Terrível — na verdade, foi um único homem que, em grande parte, definiu a silhueta moderna das pontes de Istambul.
- Os cidadãos turcos apelidaram os pilares de «chifres» (tur. boynuz) — uma referência tanto ao nome da baía «Corno de Ouro» como à simbologia marítima que o arquiteto Hakan Kiran incorporou na forma das torres.
- Após a inauguração da estação Haliç, muitos moradores dos bairros vizinhos tiveram pela primeira vez a oportunidade de atravessar a baía sem carro: até 2014, os proprietários de automóveis utilizavam a ponte Atatürka, enquanto os peões só tinham acesso à ponte de Galata.
Como chegar
A forma mais fácil de chegar à ponte do metro do Corno de Ouro é pela própria linha M2 do metro de Istambul. A estação chama-se Haliç e está localizada exatamente no meio do vão sobre a água — é impossível não a ver. A partir do norte, os comboios partem de Hacıosman (bairro de Sarıyer) passando por Taksim e Şişhane; a partir do sul — de Yenikapı passando por Vezneciler. A partir de Sultanahmet, o mais conveniente é apanhar o elétrico T1 até à estação Karaköy ou Eminönü e fazer a transição para a M2 em Şişhane, de onde até Haliç é apenas uma paragem.
A partir do Aeroporto de Istambul (IST), apanhe o metro M11 até Kâğıthane, depois o M7 até Mecidiyeköy e o M2 em direção a Yenikapı. A partir do Aeroporto Sabiha Gökçen (SAW), é mais conveniente apanhar o autocarro expresso Havabus até Taksim, onde se faz a transição para o M2. Se quiser ver a ponte do exterior, desça até à margem em Ünkapany ou Azapkapı: daqui tem-se uma vista frontal dos pilares e dos cabos. Outra opção é o barco de passeio «vapur» pelo Corno de Ouro a partir do cais de Eminönü: o percurso passa mesmo por baixo da ponte, e esta é a melhor forma de apreciar a sua dimensão.
Dicas para o viajante
A melhor altura para visitar é ao pôr-do-sol na primavera e no outono, quando o sol baixo ilumina os cabos de aço, e a partir da plataforma da estação Haliç abre-se uma dupla panorâmica: a oeste — a mesquita de Süleymaniye e a cidade velha; a leste — a Torre de Galata e os bairros de Karaköy. No verão, o calor de julho e as multidões no metro tornam a visita pesada; no inverno, as chuvas frequentes e o vento sobre a baía arrefecem o passeio pelas calçadas exteriores, mas a iluminação dos pilares ao anoitecer torna-se ainda mais expressiva.
Reserve 30 a 40 minutos para a ponte propriamente dita, se se limitar à estação e aos dois passeios. Para uma visita completa, planeie 1,5 a 2 horas: um passeio pela margem de Ünkapı, um café num café junto à água, uma sessão fotográfica dos pilares e o regresso de metro. Para os turistas de língua russa, é conveniente usar o cartão de transporte Istanbulkart: é aceite na linha M2, no elétrico T1, nos autocarros-shuttle e nos ferries, e pode ser recarregado nas máquinas automáticas à entrada de cada estação de metro. Leve consigo água, protetor solar no verão e um casaco impermeável nas outras estações — o vento sobre o Corno de Ouro é visivelmente mais forte do que nas ruas fechadas de Galata.
Combine a visita com atrações vizinhas: a Torre de Galata (a 15 minutos a pé da estação Şişhane), a Mesquita de Süleymaniye (a 20 minutos da estação Vezneciler), o Bazar Egípcio e a Nova Mesquita em Eminönü. Para o viajante de língua russa, habituado à grandiosidade das pontes de São Petersburgo sobre o rio Nevá, a comparação é particularmente interessante: com uma estrutura de cabos igualmente impressionante, o Corno de Ouro foi deliberadamente «inclinado» para a água, para não interromper as silhuetas das cúpulas e minaretes da cidade antiga — é precisamente neste compromisso que reside a sua principal ideia arquitetónica. Outra combinação conveniente é juntar a visita à abertura do vão. Ao contrário de São Petersburgo, onde as pontes são abertas regularmente e de acordo com um horário, aqui o horário de abertura é flexível: uma vez por semana no verão e duas vezes por semana no inverno, durante a noite, das 01h às 05h. É melhor verificar o horário atual na véspera junto da administração da Istanbul Metropolitan Municipality ou com um guia: as datas exatas não são publicadas num calendário público. Se tiver sorte, poderá assistir a um espetáculo raro — como a consola de 120 metros gira silenciosamente em ângulo reto, abrindo a baía para os navios de cruzeiro. Para os fotógrafos, uma recomendação especial: regressem à ponte na hora azul, logo após o pôr do sol: os cabos iluminados contra o fundo do céu ainda claro proporcionam uma das imagens contemporâneas mais reconhecíveis de Istambul. Se viajar com crianças, tenha em conta que a plataforma é aberta, mas está vedada, e que o ruído dos comboios do metro e dos navios que passam pode ser significativo. O Corno de Ouro, enquanto obra de engenharia, é um caso raro em que a infraestrutura de transportes se torna uma atração turística por si só, e é precisamente por isso que vale a pena visitá-lo não «de passagem», mas sim planear pelo menos um pôr-do-sol específico na sua linha de mármore e aço sobre a antiga baía.